"O texto simplifica meu eu complexo, ora é aliado, ora me faz refém".- Hellen Cortezolli

quinta-feira, março 22

Achado no mundo real, por apenas 3 reais

Dia nem quente, nem frio, de cor cinza, como muito me agrada. Os afazeres da manhã de quarta-feira que se repetem nas segundas e sextas, ajudam a descansar a mente inquieta, cuja ocupação se restringe a pensar em não mais ter limites...

Pra fugir da realidade adentro em uma loja que tem de tudo um pouco, não sei bem o que procuro, somente recordo que na semana anterior havia algo dali que era preciso...

Transito por uma seção e outra e imagino coisas. Uma espécie de lamparina me prende a atenção e me perco dali por segundos, uma cena de filme antigo de roteiro não escrito. Tudo ali é para ser observado cuidadosamente. Mas, ainda não sei o que quero.

Talvez fosse algo comestível... De repente, tudo ao redor silencia e imagino de quem terá sido a brilhante ideia de vender livros, não apenas livros, achados... Por apenas 3 reais. Aparentemente as mãos ganham olhos, porque é necessário tocar para se certificar do pouco valor que lhe é atribuído.
A capa tem o olhar profundo de uma mulher, cuja feição remete aos anos 20. 

Contudo, não é bem o preto e branco da fotografia... É tão familiar, “Paixão Pagu – A autobiografia precoce de Patrícia Galvão”. 

Os ponteiros do relógio retrocederam até 2007, aula de Língua Portuguesa da professora Catarina Moutinho, quando ouvi o nome Pagu pela primeira vez. Quando este nome a primeira vez fez sentido pra mim, até então ouvi-lo na letra da música da Rita Lee, causava admiração, mas uma rasa admiração. Senti o corpo se recuperar do baque lentamente, e os pelos dos braços aos poucos se acalmarem.


Incrível! Como aquela riqueza poderia custar apenas 3 reais? Se nem aqueles livros de autoajuda dos catálogos do Avon custam apenas 3 reais. Enquanto, girava o mostruário e procurava mais joias como aquela, meu braço esquerdo envolveu aquele maço de 160 páginas, capa em preto e branco e contracapa em vermelho cereja, como quem carrega uma criança, zelosamente apertada contra o seio, aquecido, seguro. Desejava mais alguns, não nego. Mas, a aquisição é limitada, precisa ser...

Depois de percorrer o caminho até em casa, coberta com o céu cinza, amostra grátis de outono, no quarto, sentada na cama, questiono ainda incrédula por repetidas vezes, silenciosamente: “apenas 3 reais, como pode?”  - descolo com cuidado o selo amarelo com o preço que na beirada dizia “mundo real”, um solavanco que me devolve à realidade sem trocadilhos. Na décima segunda página, engulo o choro de emoção das frases carregadas de significados particulares, que consumo com voracidade... Então, de fato era algo comestível que procurava.

Como não se identificar com tantas desilusões? Como não ser provocada com verdades que remetem à tantas reflexões? Como não se despir de falsos pudores e pré-julgamentos de si mesma?
Me absolvi de alguns pecados, isso lá pela sexagésima nona página, não propositalmente, ali pausei.

Meu dia não foi mais o mesmo, como também não sei mais de mim, nem de ninguém. Apenas absorvo e sorvo aos poucos como quem saboreia prazerosamente o amargo da vida de alguém que se permitiu muito mais do que uma época consentia.
Paro, reflito e continuo a ler.

“Seria bom se eu não tivesse o poder de ver as coisas com simplicidade, mas a minha vocação grandguignolesca me fornece apenas a forma trágica de sondagem. É a única que permite o amargo de novo. Sofra comigo.” – Pagu – jornalista e escritora.