"O texto simplifica meu eu complexo, ora é aliado, ora me faz refém".- Hellen Cortezolli

domingo, junho 10

Festa ruim e o escárnio merecido

Em algumas festas deveríamos chegar alcoolizados. Sabe, sob o efeito da visão otimista? O álcool nos proporciona isso.

Todo mundo passa a ser lindo! Mas, na vida real normalmente o que se vê é uma coleção de gente feia, que não se contenta e compete pra ver quem veste o traje mais caricato. Falo isso porque saio em busca de algo que fuja do convencional.

Entretanto, apesar da minha acidez peculiar e da exigência gigante (que nunca é suprida), exerci um outro olhar, que peguei emprestado com uma das muitas de mim.


Tive inveja das piriguetes, isso mesmo que você leu: inveja, porque elas não sentem frio. Enquanto eu batia queixo, envolvida por meu casaco de pura lã comprado no Uruguai (soa besta, né?!), havia moças de sangue vulcânico.

O termômetro da praça central marcava 4ºC, mas a sensação térmica era de pelo menos 2ºC. E, as tais senhoritas circulavam pelos ambientes do baile nada climatizados e com áreas restritas para os não fumantes desrespeitadas (sim, somos minoria), em seus tubinhos drapeados com decotes tomara-que-caia e suas meias finas, que de finas só havia a textura...

Deixando de lado os fúteis padrões de moda dos quais somos escravos, os pescoços viravam numa sequência do tipo efeito dominó, quando elas perambulavam esbanjando confiança, com a pura pretensão de serem vistas. É claro que por inúmeros motivos, os comentários variavam, desde corpos com temperaturas elevadas pra suportar o clima nada ameno, a ausência de senso do ridículo...

Perdi meu pensamento na extensão desse último, que veio não sei de onde, mas pairou sobre a minha cabeça: Ridícula sou eu de ter a triste mania de cumprir promessas. O que fazia ali se não era do meu agrado?  Era o único lugar onde não deveria estar. Não me sentia confortável. Então, porque guerrilhar assim comigo?

"Palavra dada é palavra cumprida", essa frase soava como tentativa frustrada de responder meus questionamentos cruéis e como um consolo improvável.

Acredito ter perdido a paciência, que já era escassa. Nunca tive o hábito de sair, o trabalho era uma desculpa que caia bem. Cobrir pautas, eventos, resenhar festas, foco, foco, foco, isso sim me diverte.

Não curto ambiente assim pra conhecer gente, são tão superficiais. Sorrisos forçados, os copos cheios, esvaziados com pressa na esperança de embaçar a visão, de dar um molejo extra ao esqueleto desajeitado, de estimular a coragem... Sei lá.

Meu primo levou um par pra dançar comigo, um outro primo emprestado, com histórias de nossas poucas farras, porém épicas... Ele fez o sacrifício de dançar duas músicas comigo. De bom tamanho.
Mas, tinha muita mina pra azarar e não gosto de empatar a foda de ninguém.

As baforadas de cigarro no meu rosto me deram a impressão de que meus pulmões estão condenados. Estes não servem mais para a doação.

Não me balanço, não adianta. Se é pra dançar de par, não marco compasso com copo de cerveja choco na mão, nem chacoalho como se fizesse uma espécie de dança do acasalamento à espera da aproximação de um macho alfa.

Chata assim mesmo!

Assim, não percebi que estava quase decorativa no salão... De repente, ouvi dois rapazes "discretos" comentarem a meu respeito:

_Essa aí que tá na tua direita.

Quando vi que era comigo, fui de fininho pra trás das pessoas, para sumir propositalmente do campo de visão dos caras. Isso sim foi o truanesco. Não eram feios ou coisa parecida, apenas não estava a fim.

E, passinho pra cá, atrás de alguém mais alto, passinho pra lá atrás da turma animadinha. E os caras virando a cabeça. Quando finalmente não tive saída. Rá! Taxi?! Go home.

PS- Estava impossibilitada de beber. :(