"O texto simplifica meu eu complexo, ora é aliado, ora me faz refém".- Hellen Cortezolli

sábado, setembro 19

48 horas por uma vidinha menos ordinária...

Depois do workshop conversei com meus pais e repensamos coisas pra mim.
Divido tudo com eles, minhas dúvidas e meus delírios, são meus amigos... Os únicos que não usarão nada contra mim mais tarde.
Na noite seguinte decidi que iria ao “Francês” com os meninos.
Que queria fazer teatro depois da formação... e viajaria pra longe. Fui apoiada e incentivada, como sempre.
Na sexta-feira à noite...
Cheguei atrasada na faculdade, a porta do salão de atos estava entreaberta...
Entrei, fui convidada a sentar e ver os filmes de 1 minuto...
Me atrasei ainda mais, mas não perdi meu tempo.
E, rumo ao “Francês”...
O que esperar de um bar? Senão a companhia...
Poetas... dualidades.
Na mesa entre conhecidos e nem tanto, fragmentos para entender o contexto...
Palavras,
Gestos,
Olhares.
Copos hora vazios, hora cheios, para ficarem vazios novamente...
Conversas instigantes, silêncios questionáveis.
Fui provocada e revidei. Não pude suportar minha própria bílis, fizemos planos infalíveis...
Na volta para casa passava das duas, sei lá que horas eram...
Um banho frio demorado, cama confortável, cabelos molhados.
Pela manhã trabalho às 8h e, pontualidade imprescindível.
Fim da bateria do celular, ninguém em casa para me buscar no trabalho, resolvi ir a pé.
Coisa que nunca faço. Fiz.
No caminho confesso que tive medo, de gente, do trânsito e do que estava sentindo.
Peguei emprestada uma das minhas multifaces...
Vi coisas que não percebo da janela do carro, não que não tivesse imaginado.
Rostos desconhecidos, perfumes, odores, todas as cores e movimentos.
No trajeto, vi rostos suados, senti o perfume do tempero de uma casa estranha, cheiro do escapamento dos carros, sons de todos os cantos.
Olhei para cima, e avistei um pé de carambolas carregado, que engraçado!
Nunca tinha visto o fruto no pé, havia pássaros que não sei o nome que bicavam, bicavam.
Caminhei como quem não pode perder a hora. Sozinha...
Meu reflexo na vitrine fez com que lembrasse que não sou transparente, anônima sim, invisível jamais.
Passei por um caminho que só vejo de ida, hoje o trajeto foi a volta.
Numa esquina, dois guardas de trânsito, paralisaram o tráfego, um acidente havia ocorrido, um carro de sei lá que marca, com o retrovisor da direita quebrado, cacos no chão. No meio fio, uma bicicleta e botas de borracha brancas. Sem vestígios de sangue... Será dúvida ou curiosidade?
Passei por outra rua, que tinha uma família sentada na garagem. O pai tinha um olhar perdido... Como quem se questiona do por que de estar ali. As crianças brincavam ao redor da cadeira de balanço. A mulher de cabeça baixa, mais ao fundo. Um cenário lido por mim, como triste... Não quero ser assim.
Quase chegando... Debaixo de uma “lua” que queimava, mas não senti o suor...
Em casa abri a primeira grade, depois a outra e os pássaros azuis que sempre me recebem na porta pediam bananas.
Grades,
Cadeados,
Segurança.
No quarto, retirei os objetos dos bolsos e, atirei em cima da cama.
Chaves, documentos, celular com a bateria descarregada, chiclete, foi quando vi a nota de vinte reais que sobrou da noite de ontem que havia ficado em cima da cômoda. Jurava que estava num dos bolsos.
Me desfiz em frente ao espelho das roupas suadas, as velhas críticas de sempre... Gorda demais, magra demais, tudo que não está bom, futilidades necessárias.
Ducha gelada para refletir o que fiz e o que deixei de fazer.
Percebi o quanto sou vazia...
Fiz em pensamento todo o trajeto de volta, os motivos que me levaram a querer mais... Senti vergonha... Retornei a minha insignificância.
No box do banheiro, depois de lavar os cabelos, me agachei e...
...chorei!
Ri aos soluços... por uma vidinha menos ordinária.