"O texto simplifica meu eu complexo, ora é aliado, ora me faz refém".- Hellen Cortezolli

terça-feira, abril 8

Alternativa

Ele ligou o rádio do carro e olhou para mulher ao seu lado. Perguntou-lhe o por quê daquele silêncio todo.
Ela respondeu com um sorriso. Porque para ela havia muito barulho, de seus próprios pensamentos, da arritmia cardíaca provocada pelo álcool em sua corrente sanguínea e outras ondas que não cabem nessa frase.
Havia ainda o som dos pneus do carro tocando a estrada, para que não perdessem a impressão de que estavam em movimento.
O vento assobiando na janela e ainda o timbre da voz dele.
Havia muito naquele nada.
Tudo, menos silêncio.

quarta-feira, outubro 2

Desconfigurada

Desassossego e cega em minhas frágeis conclusões...
Um medo obsceno, quase um aceno ou o ensaio de um adeus.

Fazer planos, elaborar estratégias, contornar danos, e o tempo se encarrega...
De apagar memórias, elucidar histórias, lançar dúvidas, questionamentos.

E tudo começou com uma vontade de não ser mais tão robótica, hoje não sei lidar com o novo, com o jeito de me emocionar fácil, com o riso ausente e as lágrimas correntes.

Saudades de ser robô.

Submersa expressão

Palavras mal ditas, malditas, não ditas.
Palavras jogadas ao vento, perdidas, subentendidas...

Palavras escritas com caneta tinteiro mancham os dedos e o papel inteiro,
Diz-se quase tudo,
Quase, porque no fundo nem sempre se sabe o que se quer dizer.
O que se deve ou não querer.

Há, no entanto uma alma inquieta, que soluça num choro febril...

Palavras mal ditas são ditas pela metade,
Palavras malditas, amaldiçoam, viram enfermidade,
Palavras não ditas se tornam utopias, decepções, avarias.
Palavras silenciadas aos que se calam por gosto, opção, por não desejar prosseguir em observação.

E minha boca agora cala, silencia, emudece...
Meus dizeres que não dizem nada, e só assim o são porque no nada navego, me afogo, me perco, não nego.

sábado, julho 20

Artes cínicas

Não se trata de uma palavra parônima ou uma brincadeira proposital regada de ironia para falar de artes cênicas, é cínica mesmo. Há por aí aos montes e talvez você também conheça, alguém de sua convivência com tais dotes, um artista cínico.

Mas, a origem do cínico vai além de sua semântica, que despreza as conveniências sociais, muito pelo contrário, este ser específico, reconhece as oportunidades em explorar os potenciais alheios de modo a servi-lo, e não se furta de enredar tantos quantos forem necessários para que convenham aos fins em que ele for o beneficiário direto. Tão pouco economiza energia caso tenha de enveredar por outros caminhos não tão dignos.

Artífice, porque leva-se um tempo até identificar seu caráter obsceno, outro tempo mais para ver que pessoa dissoluta chega a ser, desde que a finalidade seja sempre o próprio sucesso, obviamente.

É uma trama tão bem feita, que os otários passam pelo chamado “tempo da piada” e riem exageradamente, sem notar sua patética participação no enredo, até que no fim do ato, todas as máscaras caem, e lá está você rindo de si mesmo, por não ter valor algum, por não ter entendido que o gracejo é ninguém além de você e, no fim das contas, pagar para ser motivo de riso.

quinta-feira, julho 18

Construção poética de um texto

Alinhar opiniões, imagens, juízos parece um ato singelo, há os capazes de executar com primazia, quase como um reflexo. Talvez por essa superficial noção, exista o pensamento equivocado de que qualquer um seja capaz de escrever de modo a tocar os sentimentos de alguém. 

Particularmente a coisa toda ganha largas proporções, é como vincular mundos distintos. Obter sucesso na conexão de ideias seria algo muito parecido com uma ponte. Sei o formato que uma ponte pode ter e o material que poderei empregar. Porém, um texto escrito com sentimento é mais que isso. 

É a forma que os mundos têm de se aproximarem, o meu mundo do seu. As palavras precisam ser bem escolhidas, para que a existência não seja aleatória, a intenção é mais complexa. Cada palavra, frase, num contexto, formará o juízo e, esta, acarretará em uma emoção. 

Isso sim é mágico. 

Às vezes paro diante da construção da ponte, imagino qual modelo ficaria melhor, uma ponte de madeira, de concreto, de corda, uma ponte frágil, que pode facilmente ser desgastada com o tempo, ou de repente, até aquela já destruída para que você se aventure a atravessa-la e assuma correr riscos. 

Essa ponte como disse anteriormente é aquela palavra da qual tenho vaga lembrança, e insisto nela, para que torne a conjectura na qual me insiro e quero inseri-lo, em um universo específico. 

Esse texto só foi possível, porque parei exatamente entre dois cumes, cuja ponte precisarei construir. 

quarta-feira, julho 17

Discurso dos meus métodos

Reflexões e auto-retrato
Não existe ética diferenciada para cada ambiente que você frequenta. Meus valores não mudam conforme os membros que compõem uma mesa. Não faço politicagem.

O que tenho a dizer falo na cara, não espero que ninguém se retire para isso. E, não abro mão da minha satisfação pessoal para agradar ninguém. Há um caminho extremamente distinto entre integridade moral e babaquice.

Não acato discurso medíocre, tão pouco, falsa motivação.
Nunca me submeti por dinheiro a ter de trabalhar com gente que não me fazia bem e não o faço de graça.

Amor? Ter amor ao trabalho, a arte, as pessoas nada tem a ver com submissão cega e descabida.

Até o ridículo tem senso.

sexta-feira, maio 31

Análise sobre os próprios porquês

Sempre tive pressa, porque morri muitas vezes... Literalmente até.

Tenho pressa porque no trajeto até aqui vi pessoas que colecionavam pessoas. Não que eu seja peça única, apesar do sustenta o DNA, não é também que me sinta melhor que qualquer outro, nem tão pouco pior. Contudo, não sou colecionável e sem pestanejar sempre me desfarei do que não me fizer bem.

Sou quem sou, porque já vivi algumas coisas, intensas... Potencializadas para que fosse possível construir um discernimento baseado em teorias, fórmulas e acima de tudo sentimentos. 

Carrego comigo cicatrizes de guerra, as mais profundas, de que me lembro, travei comigo mesma. 

As mentiras tomam forma de verdades se contadas muitas vezes, quem sabe até em voz alta, para que quem as profira, possa acreditar nelas. 

A minha verdade se equipara aos meus erros, porque sou adepta da filosofia do sim ou não e justificar os porquês. Essas explicações raramente são bem recebidas, lidas ou interpretadas. A verdade dói, assim como a vida dói... Se não doer como saberemos que não é um sonho? Que não estamos dormindo em nossas camas quentes? 

Sou quem sou, porque admito e sustento minhas palavras, meus atos, minhas convicções, mesmo que as quedas sejam inevitáveis. O jeito é levantar e prosseguir.

O tempo nos apresenta caminhos e, escolhemos por quais percorrer... Mas, uma coisa é certa, sempre haverá caminhos... No plural! 

A premissa de que há apenas um, além de equivocada, não nos é apresentada com cara feia, ela vem bem maquiada, cheia de enfeites, pronta para seduzir ou apenas encantar. 
Me despi sim  com o tempo, da carapaça grossa que defendia meus valores, sinto muito quando não sou compreendida, mas não surto por isso. Não perco meu sono. 

Me entendo, me aceito e com o tempo, quem sabe um dia... Posso vir a mudar. Porque até as pedras mudam. Ainda assim, descarto e não olho para trás, porque a evolução está sempre à frente. 

Hellen Cortezolli