| Ver o igual por outro ângulo. Foto: Éverton Fagundes |
quarta-feira, agosto 17
O silêncio verborrágico de um diário de bordo não escrito
quarta-feira, outubro 27
Dàs seis aos males que vem para o bem
Naquela manhã, havia acordado várias vezes, abri os olhos e vi o quarto ainda escuro. E, por incrível que pudesse parecer, esperei pelo canto daquele pássaro. Ele não cantou...
Acordei uma hora mais tarde, imaginei que o pássaro provavelmente estivesse morto.
Fui para o chuveiro e notei que as gotículas d’água desceram e ao tocarem meu corpo pareciam brilhar. Percebi então, que até aquele momento, eu não havia ouvido nenhum ruído, nem o ranger da cama ao levantar, nem o som da água batendo no chão. Enxuguei meu corpo, me vesti, peguei minha bolsa, uma maçã e as chaves do carro.
Desativei o alarme que não emitiu som algum, apenas o apagar do display arredondado. Sentei no banco do motorista, liguei o rádio e lá estava eu, completamente surda. No caminho, até pensei em ir ao hospital, mas resolvi seguir o trajeto para o trabalho. Ao chegar à redação me dei conta de que as pessoas não levantam o olhar para desejar bom dia como força do hábito, aquilo que chamam de educação. Ninguém olha nos olhos porque não se importam, porque eu deveria me importar se não as posso ouvir?
Não era preciso ouvir os murmurinhos vindos da copa, as piadinhas nojentas daquele velho tarado que não se enxerga, as cantadas idiotas do cara sem noção, as reclamações das colegas mal amadas, os deleites das noites quentes do chefe com a namorada nova, tão pouco o festival de toques torturantes dos celulares... Todo o inferno havia ido embora.
Durante uma semana fingi que ouvia as razões que levavam Cláudia às lágrimas, quando os lábios dela paravam de mexer eu disse:
_ Sinto muito não ter nenhuma resposta para seus problemas, mas se precisar estarei aqui.
Ela sorriu, enxugou as lágrimas, verificou a maquiagem, se recompôs e enfim, foi cuidar de seus afazeres, e deixou que eu cuidasse dos meus.
Aquela semana foi uma das melhores da minha vida, afinal, sempre fui muito sozinha e as conveniências sociais me fizeram esquecer de minha própria existência... Me realizei profissionalmente naquele período, nada me desconcentrava...
Observava as pessoas sem que percebessem ou se incomodassem, senti como se fossem minhas cobaias.
Hoje quando acordei, estava presa pelas ferragens do meu carro novo, que agora não passa de metal retorcido...voltei a ouvir tudo, as vozes dos paramédicos, os gritos dos curiosos, a passagem da repórter que fazia cobertura ao vivo do acidente, vi quando ela arrumou o cabelo e conferiu se a pele não estava brilhosa demais. Ela disse:
_ De acordo com informações, o caminhão que vinha na contramão buzinou, mas não foi possível impedir que colidisse com o carro de placa, blá, blá.
Pensei comigo: De que adiantaria buzinar se trafegava na contramão, e de que adiantaria eu ouvir a buzina, meus ouvidos não iriam frear, não tão de perto.
Juro que tive vontade de rir da situação. Que coisa idiota de se dizer, de ser ouvida.
Depois de dois meses, recebi alta do hospital, não ficaram sequelas, tudo estava funcionando perfeitamente. De volta em casa, o pássaro me despertou pontualmente às seis...
No trabalho toda a barulheira de novo, tudo sem exceção. Foi quando Cláudia estranhou minha falta de concentração e uma singela ruga na testa e perguntou:
_ Você está bem?
Levei um tempo para perceber que havia perdido não só as minhas cobaias, mas aquele universo inteiro que me era novo, até que finalmente respondi.
_ Agora entendo o que a frase “Há males que vem para o bem” significa.
quarta-feira, agosto 18
A mulher que ficou empoeirada
O que não posso jogar fora é minha pele. Mesmo quando a poeira me faz triste e doente. Tenho um segredo: planejo desde o ano passado um suicídio muito delicado. Planejo esperar a poeira, me ver empoeirar. E depois, escrever assim: "Dormiu e acordou empoeirada".
Sentou na cama. Ficou imóvel por muitos dias. O quarto fechado. Ninguém na casa. Apenas ela, os móveis e os objetos. Todos silenciosos e em completa imobilidade. Ela respirava devagar como quem percebia a cama respirar e também as roupas e os sapatos. Ela estava muito silenciosa, e atenta. Respirava devagar; as prateleiras do guarda-roupa e as cobertas também respiravam devagar. Na rua havia ruídos e latidos de cachorro, mas ali no quarto todos se concentravam no que havia de silêncio. Ela sentia que havia descoberto um buraco. Até que fechou os olhos e dormiu um pouco - ainda imóvel e silenciosa. Então, dormiu e acordou empoeirada.
P.S ESSE EU ACHEI A TUA CARA, HELLEN... com esse teu breve ócio paranóico
* Recebi esse presente de um amigo meu, ele pediu para não identifica-lo, mas não resisto indicar seus cuidados... Tenho um carinho enorme por ele, foi ele quem sempre falou o que pensava a meu respeito, mesmo antes de nos tornarmos amigos (achei isso o máximo). Talvez tenha sido a primeira pessoa a se desculpar comigo, por não ter ido com a minha cara (rsrs), já que respeito as opiniões contrárias as minhas. O respeito e admiro ainda mais por isso. Por não ter papas na língua, nem a necessidade de agradar ninguém. (Sei que levou um tempo, mas sempre cumpro com minhas palavras, para você meu anônimo favorito, obrigado, tá?).
quinta-feira, maio 27
Desprezo às divergências e consumidos pelo amor
Práticaconstante e Contratempo. Acreditem meus caros, esse amor nasceu em meio à contramão dos desejos. Ela, moça prendada, organizada ao extremo, não se permitia mudanças. Qualquer modificação em seu dia lhe provocava dores quase físicas.
Ele, rapaz bonito, porém um tanto desajustado aos olhos da sociedade mais conservadora. Não encarava bem as imposições, regras com ele era motivo de desafios. Sob as críticas dos mais poderosos, fazia tudo para provocar a ira dos velhotes. O apelidaram de Provocador, mas Contratempo não se importava nenhum pouco. Queria mesmo saber de Adrenalina, rapariga que deixava todos os homens loucos e não ficava muito tempo com ninguém, nenhum relacionamento duradouro.
Um golpe dado pelo Sr. Destino, um sábio respeitado na região, fez com que Contratempo, após aprontar uma das suas, ficasse preso em casa por uma semana. Medida drástica decidida em função do envolvimento dele com uma outra moça, que resolveram manter o nome em sigilo.
Para Contratempo aqueles dias seriam infinitamente torturantes. Resolveu curtir um som. Imagine aquele rapaz altivo, sedutor, charmoso, galanteador, com um olhar que diz mais que mil palavras. Como todo pedaço de mau caminho precisa ser, preso sozinho dentro de casa, ai, ai, ai (até eu, ops... voltando a historinha).
Práticaconstante, precisou sair de casa às pressas, quase em desespero à procura do velhinho que trabalhava de síndico no prédio onde morava, Sr. Caminho, que por causa da idade avançada, não atendia mais o interfone. Ela estava enlouquecida de raiva, afinal de contas, Práticaconstante teve uma de suas regrinhas, obedecidas religiosamente, quebradas por um ruído ensurdecedor vindo do apartamento do vizinho recém chegado.
E acompanhado de sua neta mais nova, Paciência, que o Sr. Caminho foi até o apartamento “barulhento” a pedido de Práticaconstante, que mesmo enraivecida, era muito tímida para reclamar e se posicionou atrás do Sr. Caminho e de sua netinha Paciência.
Após várias tentativas de fazer o vizinho barulhento parar, já estavam desistindo quando os ruídos finalmente cessaram e a porta se abriu... Eis que surge um rapaz muito bonito, com olhos verborrágicos e um sorriso hipnotizador, fez um sinal com a cabeça para saber do que se tratava aquele alvoroço todo. Até que viu Práticaconstante e ela o fitou de volta. Ambos fixaram seus olhares por tanto tempo que o próprio tempo pareceu com vergonha e fingiu não existir mais.
O Sr. Caminho deveras conhecedor da natureza humana, pegou sua neta Paciência pela mão e disse baixinho: “Vamos querida, vovô já viu esse filme muitas vezes”.
Aqueles segundos onde os olhares repousaram em seus respectivos corpos, fez com que esquecessem do incidente que os levaram até aquela circunstância.
E foi assim, que se apaixonaram perdidamente, Contratempo e Práticaconstante. Um não vive sem o outro. Brigam como qualquer casal, mas quando a coisa fica feia, Práticaconstante chora de saudades de Contratempo, e ele por sua vez, não fica um só dia longe dela.
domingo, dezembro 13
Reflita se puder…
Nos versos que quando menina sonhava ouvir,
Idealizou um vestido...
E um homem bonito,
Pra quem pudesse se despir,
E lembrou que era fria,
Lembrou do que temia...
E, que havia morrido muitas vezes...
Esqueceu porque morria,
Esqueceu de todos eles!
sexta-feira, dezembro 11
Um soneto para Vanda
segunda-feira, dezembro 7
Ninguém sabia
quinta-feira, novembro 26
Um destino melhor
(Um conto dedicado à Fausto Suzuki pela influência).
Laís tinha 17 anos, corpo formado, cabeça vazia, uma cara de sonsa...
Esforçada na escola, lia todos os livros que podia, passava horas na biblioteca. Os pais a deixavam na porta da escola, depois iam buscá-la, certos de que não tinham com que se preocupar.
Marcos era um cara boa pinta, sério, dava aulas de filosofia, desejado por todas as mulheres com as quais trabalhava, recusava todos os convites para sair. Falava várias línguas, usava roupas caras. Nas horas vagas, estudava artes...admirava.
Eles se encontravam na esquina da escola, depois que todos a viam entrar no prédio. Mal podiam desconfiar que ela pulava o muro. Entrava no carro dele, iam para outro lugar, mais afastado dali.
Sofia tinha um corpo perfeito, um cabelo cor de fogo. Se escondia em roupas sem graça, não usava maquiagem, e andava sempre cabisbaixa. Um dia no elevador do museu esbarrou num homem bonito, que lhe pediu desculpas e sem querer pegou em sua mão... Ele comentou que acabara de ler o mesmo livro que lhe pertencia, enquanto o juntava do chão.
Por algum motivo que Sofia não pode explicar aquilo mexeu muito com ela, que imediatamente desviou o olhar daqueles olhos lindos.
Depois daquela tarde, Sofia não o conseguia tirar da cabeça. Passava minutos a fio alisando a capa do livro, que ele havia tocado.
Enquanto isso, Laís continuava com sua rotina. Não ligava para os rapazes da escola, se acabava de estudar, não abria a boca para nada. Mas, usava roupa da moda, que parecia terem sido costuradas a vaco no próprio corpo. Quando estava com Marcos, usava batom vermelho, que ficava na bolsa de maquiagem guardada no porta luvas do carro dele. Ele afrouxava o nó da gravata...
Depois de um mês, Sofia acreditava saber tudo sobre o homem misterioso que não a deixava dormir uma noite, sem que sonhasse com ele. Resolveu escrever uma carta, sem assinar. Deixou perto do lugar onde ele sentava para admirar as esculturas do museu, era sempre o mesmo lugar... Ele olhava para elas e se perdia nos pensamentos. Mas naquela tarde foi diferente, havia um envelope com seu nome. Ele viu, o abriu e leu.
Sofia escondida, observava de longe. A carta tinha os mais intensos sentimentos, ele emocionado procurava por todos os lados daquela sala fria, quem poderia ter escrito tais palavras, todas dirigidas a ele, um lado que ele nem sabia que tinha, mas que gostou muito de ter transmitido... Imaginou como seria aquela mulher delicada que havia preenchido aquelas linhas.
Passados mais oito meses. Marcos não lembrava mais da carta, continuava sua rotina de recusa aos convites das outras mulheres. Sempre parecendo distante. Nenhuma era boa o suficiente para ele.
Laís seguia também com suas fugas sem sombra de dúvidas, ela não tinha amigas, ninguém que quisesse conversar com a cdf da sala, então tudo bem.
Quando não agüentava mais aquele sentimento rasgando seu peito, Sofia resolveu seguir seu amado, e se declarar, lembrá-lo da carta...
Vestiu um vestido tubinho preto, arrumou seus cabelos ruivos compridos, colocou salto (que precisou ter aulas para se equilibrar), comprou uma rosa branca e levou consigo o livro que havia os “unido” naquela tarde de chuva, dentro do elevador do museu.
Laís, repetiu sua rotina com Marcos... Pulou o muro da escola, entrou no carro dele, passou o batom vermelho e ele afrouxou a gravata...
Sofia estava na rua onde ele morava, já era possível avistar o prédio de longe... Só mais alguns passos...
Foi quando viu o carro dele chegando, havia uma mulher com ele. Sofia sentou no meio fio e chorou. Se sentiu ridícula com aquela roupa e todos os esforços em vão, como pôde acreditar que ele já não amava outra mulher?
O carro entrou no prédio e Marcos não demorou para sair novamente, desta vez a pé. Atravessou a rua, caminhou até a banca de jornais, ascendeu um cigarro, lá tinha um homem, bem mais velho a quem lhe entregou as chaves...
Sofia sentada no meio fio despertou o interesse de Marcos, que se aproximou e perguntou se já se conheciam. E por que ela estava chorando. Ela respondeu que talvez já tivessem se visto em algum lugar, mas que ela não lembrava.
Ele a convidou para um café. Depois de alguns minutos de conversa ela pergunta se ele não deveria ir para casa, afinal um homem como ele deveria ter alguém o esperando lá. Ele ruborizou e respondeu que não poderia ir ainda. Pois seu apartamento serve de encontro para um casal. Ela não pergunta mais nada, mas ele certo de que não a veria outra vez resolve falar.
“Eu conheço uma moça, que se encontra com homens mais velhos no horário de aula, por um certo valor, depois que ela termina, dividimos o dinheiro.”
Sofia sente seu mundo cair, e o chão se abrir por entre seus pés. O homem com quem ela imaginou que poderia ter alguma coisa, era um gigolô. A moça com quem ele estava no carro era uma prostituta.
Sofia agradece o café e vai embora. Esquece sobre a mesa, a rosa branca e o livro...
Quando volta para casa, Marcos encontro Laís morta com um tiro na cabeça, seus miolos espalhados pela sala e o velho morto ainda de meias com um tiro na boca... Crime passional grita o vizinho, que já haviam chamado a polícia.
Marcos sai correndo dali, sem saber o que fazer...
O que diriam os colegas de trabalhos, as mulheres com quem ele se recusou a sair? Foi quando ele lembrou de Sofia, poderia usá-la como álibi ou sei lá, uma companhia. Correu sem olhar a rua, e um ônibus o atingiu em cheio. Estavam todos mortos, o gigolô, a prostituta e o velho nojento.
Sofia ainda caminhava sem sentir o chão... Rumo a sua casa, sem saber o que havia acontecido...
Depois de uma noite sem dormir, juntou o jornal do chão da sala de seu apartamento, vestiu o robe e foi tomar café. Entre um gole de café folhava o jornal, nas páginas policias estava estampado o título do crime passional, na seguinte de um atropelamento...de um homem de 30 anos, por negligência...
Sofia põe a mão na boca e sufoca um grito, enche os olhos de lágrimas e de repente, gargalhadas profundas lhe escapam, um riso aliviado. Ela olha para o jornal e diz:
“Não poderiam ter tido um destino melhor”!
