"O texto simplifica meu eu complexo, ora é aliado, ora me faz refém".- Hellen Cortezolli
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quarta-feira, agosto 17

O silêncio verborrágico de um diário de bordo não escrito

Não faltou coragem, me deixei levar... apenas fui e vivi.

Ao desembarcar mal sentia meus pés, pareciam ter optado por permanecer sob as nuvens. Ainda descrente enchi meus olhos com toda a informação que fosse possível capturar e havia tanto. O olhar agia como lentes nervosas, cujo ISO e obturador, propositalmente configurados para que entrasse toda a luz, capaz de invadir minha alma velha, disparasse ininterruptamente. 

Sem exageros cada sorriso era um flash, o rosto por hora parecia ter congelado, os músculos todos contraídos em um só formato, deliciosamente motivado.

O brilho incandescente daqueles olhos ofuscaram todos os outros filetes, e a luz oriunda daquele sorriso me deixou muda e paralisada. Não sabia pelo quê esperar ou se deveria.

Tanto tempo... Era como se não havia existido. Uma grande pausa e todos os sonhos recolhidos, as decepções colecionadas por mais de uma década, se transformaram em apenas sonhos ruins. Nada além... Como pode?
Ver o igual por outro ângulo.
Foto: Éverton Fagundes
E tudo ficou perfeito. Até o chamar de minha atenção era suportável, mesmo que precisasse de um tempo para processar tais conhecimentos, tudo era novo e não sabia o que pensar.

Não estava no comando, apenas deveria me deixar guiar. E foi tão bom ser eu mesma, abusar da fragilidade escondida tão profundamente, nada de blindagem, sem armadura. E sem vergonha ou medo.
A tarde de sol e um calor gostoso ganharam estrelas em apenas um lugar, era possível observar dali até a estratosfera. Eu ria, via, sentia...


Depois podia comer um caminhão de cultura, arte, pintura, livros, cinema, tudo à disposição, ao alcance dos dedos e meu medo... era só em querer tocar e finalmente perceber que era tudo verdade.

Ouvir os sons de todos os tipos, as músicas desconhecidas e, um perfume de casa limpa, como a que imaginamos nas propagandas de amaciante de roupas... Depois contemplar o pôr do sol. 

Tudo isso no primeiro de sete dias.
Não queria mais acordar. Nunca mais.


quarta-feira, outubro 27

Dàs seis aos males que vem para o bem

Todas as manhãs quando o relógio marcava seis horas, um pássaro cantava na minha janela. De acordo com meu humor ou estado de espírito, que no fundo é a mesma coisa, achava lindo ou irritante. Aos domingos quando podia dormir até um pouco mais tarde, aquele bicho inconveniente insistia em me despertar, todos os dias, às seis horas.
Naquela manhã, havia acordado várias vezes, abri os olhos e vi o quarto ainda escuro. E, por incrível que pudesse parecer, esperei pelo canto daquele pássaro. Ele não cantou...

Acordei uma hora mais tarde, imaginei que o pássaro provavelmente estivesse morto.
Fui para o chuveiro e notei que as gotículas d’água desceram e ao tocarem meu corpo pareciam brilhar. Percebi então, que até aquele momento, eu não havia ouvido nenhum ruído, nem o ranger da cama ao levantar, nem o som da água batendo no chão. Enxuguei meu corpo, me vesti, peguei minha bolsa, uma maçã e as chaves do carro.

Desativei o alarme que não emitiu som algum, apenas o apagar do display arredondado. Sentei no banco do motorista, liguei o rádio e lá estava eu, completamente surda. No caminho, até pensei em ir ao hospital, mas resolvi seguir o trajeto para o trabalho. Ao chegar à redação me dei conta de que as pessoas não levantam o olhar para desejar bom dia como força do hábito, aquilo que chamam de educação. Ninguém olha nos olhos porque não se importam, porque eu deveria me importar se não as posso ouvir?

Não era preciso ouvir os murmurinhos vindos da copa, as piadinhas nojentas daquele velho tarado que não se enxerga, as cantadas idiotas do cara sem noção, as reclamações das colegas mal amadas, os deleites das noites quentes do chefe com a namorada nova, tão pouco o festival de toques torturantes dos celulares... Todo o inferno havia ido embora.

Durante uma semana fingi que ouvia as razões que levavam Cláudia às lágrimas, quando os lábios dela paravam de mexer eu disse:
_ Sinto muito não ter nenhuma resposta para seus problemas, mas se precisar estarei aqui.
Ela sorriu, enxugou as lágrimas, verificou a maquiagem, se recompôs e enfim, foi cuidar de seus afazeres, e deixou que eu cuidasse dos meus.

Aquela semana foi uma das melhores da minha vida, afinal, sempre fui muito sozinha e as conveniências sociais me fizeram esquecer de minha própria existência... Me realizei profissionalmente naquele período, nada me desconcentrava...

Observava as pessoas sem que percebessem ou se incomodassem, senti como se fossem minhas cobaias.
Hoje quando acordei, estava presa pelas ferragens do meu carro novo, que agora não passa de metal retorcido...voltei a ouvir tudo, as vozes dos paramédicos, os gritos dos curiosos, a passagem da repórter que fazia cobertura ao vivo do acidente, vi quando ela arrumou o cabelo e conferiu se a pele não estava brilhosa demais. Ela disse:
_ De acordo com informações, o caminhão que vinha na contramão buzinou, mas não foi possível impedir que colidisse com o carro de placa, blá, blá.
Pensei comigo: De que adiantaria buzinar se trafegava na contramão, e de que adiantaria eu ouvir a buzina, meus ouvidos não iriam frear, não tão de perto.
Juro que tive vontade de rir da situação. Que coisa idiota de se dizer, de ser ouvida.
Depois de dois meses, recebi alta do hospital, não ficaram sequelas, tudo estava funcionando perfeitamente. De volta em casa, o pássaro me despertou pontualmente às seis...

No trabalho toda a barulheira de novo, tudo sem exceção. Foi quando Cláudia estranhou minha falta de concentração e uma singela ruga na testa e perguntou:
_ Você está bem?
Levei um tempo para perceber que havia perdido não só as minhas cobaias, mas aquele universo inteiro que me era novo, até que finalmente respondi.
_ Agora entendo o que a frase “Há males que vem para o bem” significa.

quarta-feira, agosto 18

A mulher que ficou empoeirada

O que não posso jogar fora é minha pele. Mesmo quando a poeira me faz triste e doente. Tenho um segredo: planejo desde o ano passado um suicídio muito delicado. Planejo esperar a poeira, me ver empoeirar. E depois, escrever assim: "Dormiu e acordou empoeirada".

P1100389Sentou na cama. Ficou imóvel por muitos dias. O quarto fechado. Ninguém na casa. Apenas ela, os móveis e os objetos. Todos silenciosos e em completa imobilidade. Ela respirava devagar como quem percebia a cama respirar e também as roupas e os sapatos. Ela estava muito silenciosa, e atenta. Respirava devagar; as prateleiras do guarda-roupa e as cobertas também respiravam devagar. Na rua havia ruídos e latidos de cachorro, mas ali no quarto todos se concentravam no que havia de silêncio. Ela sentia que havia descoberto um buraco. Até que fechou os olhos e dormiu um pouco - ainda imóvel e silenciosa. Então, dormiu e acordou empoeirada.

P.S ESSE EU ACHEI A TUA CARA, HELLEN... com esse teu breve ócio paranóico 

* Recebi esse presente de um amigo meu, ele pediu para não identifica-lo, mas não resisto indicar seus cuidados... Tenho um carinho enorme por ele, foi ele quem sempre falou o que pensava a meu respeito, mesmo antes de nos tornarmos amigos (achei isso o máximo). Talvez tenha sido a primeira pessoa a se desculpar comigo, por não ter ido com a minha cara (rsrs), já que respeito as opiniões contrárias as minhas. O respeito e admiro ainda mais por isso. Por não ter papas na língua, nem a necessidade de agradar ninguém. (Sei que levou um tempo, mas sempre cumpro com minhas palavras, para você meu anônimo favorito, obrigado, tá?).

quinta-feira, maio 27

Desprezo às divergências e consumidos pelo amor

Já era tarde quando comecei a lamentar minha falta de histórias... Então lembrei da história de amor de um casal que conheço a não sei quanto tempo...
Práticaconstante e Contratempo. Acreditem meus caros, esse amor nasceu em meio à contramão dos desejos. Ela, moça prendada, organizada ao extremo, não se permitia mudanças. Qualquer modificação em seu dia lhe provocava dores quase físicas.
Ele, rapaz bonito, porém um tanto desajustado aos olhos da sociedade mais conservadora. Não encarava bem as imposições, regras com ele era motivo de desafios. Sob as críticas dos mais poderosos, fazia tudo para provocar a ira dos velhotes. O apelidaram de Provocador, mas Contratempo não se importava nenhum pouco. Queria mesmo saber de Adrenalina, rapariga que deixava todos os homens loucos e não ficava muito tempo com ninguém, nenhum relacionamento duradouro.
Um golpe dado pelo Sr. Destino, um sábio respeitado na região, fez com que Contratempo, após aprontar uma das suas, ficasse preso em casa por uma semana. Medida drástica decidida em função do envolvimento dele com uma outra moça, que resolveram manter o nome em sigilo.
Para Contratempo aqueles dias seriam infinitamente torturantes. Resolveu curtir um som. Imagine aquele rapaz altivo, sedutor, charmoso, galanteador, com um olhar que diz mais que mil palavras. Como todo pedaço de mau caminho precisa ser, preso sozinho dentro de casa, ai, ai, ai (até eu, ops... voltando a historinha).
Práticaconstante, precisou sair de casa às pressas, quase em desespero à procura do velhinho que trabalhava de síndico no prédio onde morava, Sr. Caminho, que por causa da idade avançada, não atendia mais o interfone. Ela estava enlouquecida de raiva, afinal de contas, Práticaconstante teve uma de suas regrinhas, obedecidas religiosamente, quebradas por um ruído ensurdecedor vindo do apartamento do vizinho recém chegado.
E acompanhado de sua neta mais nova, Paciência, que o Sr. Caminho foi até o apartamento “barulhento” a pedido de Práticaconstante, que mesmo enraivecida, era muito tímida para reclamar e se posicionou atrás do Sr. Caminho e de sua netinha Paciência.
Após várias tentativas de fazer o vizinho barulhento parar, já estavam desistindo quando os ruídos finalmente cessaram e a porta se abriu... Eis que surge um rapaz muito bonito, com olhos verborrágicos e um sorriso hipnotizador, fez um sinal com a cabeça para saber do que se tratava aquele alvoroço todo. Até que viu Práticaconstante e ela o fitou de volta. Ambos fixaram seus olhares por tanto tempo que o próprio tempo pareceu com vergonha e fingiu não existir mais.
O Sr. Caminho deveras conhecedor da natureza humana, pegou sua neta Paciência pela mão e disse baixinho: “Vamos querida, vovô já viu esse filme muitas vezes”.
Aqueles segundos onde os olhares repousaram em seus respectivos corpos, fez com que esquecessem do incidente que os levaram até aquela circunstância.
E foi assim, que se apaixonaram perdidamente, Contratempo e Práticaconstante. Um não vive sem o outro. Brigam como qualquer casal, mas quando a coisa fica feia, Práticaconstante chora de saudades de Contratempo, e ele por sua vez, não fica um só dia longe dela.

domingo, dezembro 13

Reflita se puder…

Se surpreendeu pensando em Shakespeare,
Nos versos que quando menina sonhava ouvir,

Idealizou um vestido...
E um homem bonito,
Pra quem pudesse se despir,

E lembrou que era fria,
Lembrou do que temia...

E, que havia morrido muitas vezes...
Esqueceu porque morria,

Esqueceu de todos eles!

sexta-feira, dezembro 11

Um soneto para Vanda

   Vanda vivia sozinha num apartamento no sexto andar. Tinha vinte e poucos anos. Havia se mudado não fazia nem um mês.
   Gostava de todas as cores, desde que todas elas fossem “pretas”.
   Era pálida, com um semblante de morta.
   Os vizinhos desconheciam Vanda, mas gostavam de admirá-la. Ela chegava do trabalho, ascendia as luzes, limpava todos os cantos, uma sala pequena com dois ambientes, bem em frente à janela.
   Na primeira porta a direita o quarto, com cama de casal e um guarda-roupa, uma TV e um aparelho de som. Na porta a esquerda a cozinha que dava acesso a uma varanda pequena.
   Daquela altura dava para ver parte da cidade, e a noite só eram as luzes...
   Lá embaixo tinha uma casa grande, com piscina. E a observavam de lá. Vanda se debruçava no parapeito, já que não tinha sacada. Olhava por horas para o nada, sonhava, sonhava. Quando se dava conta, olhava para baixo e quando avistava olhares curiosos, sumia.
   Não estava tão quente, mas à noite ventava um pouco, as cortinas voavam, parecia sombrio...
  Ouvia som muito alto, uma música triste, que ninguém sabia, ora mudava, pra outra mais conhecida, um cd com voz feminina, que de tanto ouvir, o casal gay do sétimo andar, comprou igual. Quando a música não vinha da casa de Vanda, era da deles.
  Vanda falava pouco, era muito séria. Delineava os olhos, como estratégia para manter os olhos dos outros nos seus. Ninguém percebia assim suas mãos trêmulas.
  Não tinha namorado, havia cicatrizes em sua alma bem recentes, de dois anos antes. Que a deixaram mais amarga. E ela se armou. De subterfúgios, para não sentir mais dor.
  Mas, mesmo assim, Vanda tinha chama para os homens, não precisava fazer nada, às vezes acontecia... Eles desejavam Vanda, sem ela saber. Um dia lhe diziam... Até aquele senhor sem graça, que trabalhava com ela, lhe dava bom dia e mais nada, tinha uma esposa muito brava, a quem ela tratava bem, só com Vanda ela falava.
  Depois de um ano, ele se aproximou do balcão e do nada disse:
- Ontem sonhei com você.
Sem levantar a cabeça, concentrada em suas anotações, Vanda perguntou:
- Ah, é? E o que o senhor sonhou?
- Que você estava de lingerie vermelha.
Vanda levou um susto, o fitou rapidamente e ele completou:
- Foi quando acordei com minha mulher me esmurrando para eu levantar.
  Vanda não falou nada, só ficou olhando aquele senhor se afastar.
  Sentiu vergonha e buscou na memória o que havia feito de errado pra despertar um sentimento assim, naquele senhor tão calado.
E foi para casa, não pensou mais nisso. Deixou para lá...
  Ela sentia uma solidão só dela, às vezes chorava, os vizinhos pensavam que Vanda não iria durar muito... Achavam que dores da alma fazem padecer rapidamente. Vanda não se abria com ninguém, não tinha amigas, não sentia falta.
  Vanda não era calminha, não entrava numa briga, mas não fugia de nenhuma delas. Encarava quem quer que fosse e não perdia sua razão. Vanda não tinha mais medo, exceto de emoção.
  Na cozinha toda branca, pequena e arrumadinha, Vanda fazia comida de microondas, deixava tudo pronto para o dia seguinte, chegava na hora do almoço, requentava, dormia seminua para não ter trabalho de tirar nada, eram só quinze minutos. Acordava com o despertador do celular, se banhava em água quente, se vestia e voltava para o trabalho, há uns dez minutos dali.
  Depois tudo de novo... no outro dia e, no outro...
  Vanda se apaixonava, mas não era por ninguém que a amasse, era pelo impossível, por alguém que a enxergasse, ela só não sabia das outras pessoas, não interessava. Narcisista, incoerente, dentre tantas outras coisas, essa era Vanda.
  Ouvia música estranha, não escrevia há anos. Conversava com os pais ao telefone todos os dias, pelo menos uma vez, e se queixava da vida... E, de saudades.
  Vanda emagrecia, já era magra, agora cadavérica.
  Mais um havia se declarado a ela, e lhe roubado um beijo, então Vanda fugiu, entregou o apartamento e mudou de cidade.
Mudou de estilo, ficou mais agressiva, estudou a arte de afastar pessoas, falava sem parar, falava o que pensava. Passou a usar colorido, e usar um cabelo diferente, deixou bem comprido...
Dispensou mais rapazes, até que um persistiu, persistiu. Vanda cedeu... Ficou com ele, o que não impediu de despertar outros mais... Não fazia por mal.
Lembrou que um dia amou Shakespeare, e desejou quimera.
E ela pensou em recitar Vinícius de Moraes...
Pensou em outro rapaz;
Pensou tão profundamente que descobriu,
O quanto doía,
E doía demais...
Vanda hoje quer fugir novamente, só não sabe para onde.


Um soneto para Vanda
E se calava só, e só calava.
Olhava para o mundo e fugia.
O medo a fez perversa, a encurralava;
Tinha sentimento profundo, mas omitia.



A voz embargava, nó que a deixava sem ar
Se alimentava de dor, sem mastigar, engolia;
Com a verdade, a maldade reclamava seu lugar,
De olhos marejados e alma pobre pedia...



É suspeita por amar demais,
Tem n’alma uma chama pesada
Ataca antes e defende mais


Antes de dormir sofre calada.
Ignora tudo, mesmo culpada
Mantém um desejo de voltar atrás...


Num tempo que sonhava ser amada.

E se calava só, e só, calava.
Sentia culpa, lhe faltava paz...


Vanda! Detrás dos teus olhos tens uma alma levada.

(Um conto e outros pontos por H. Cortezolli)

segunda-feira, dezembro 7

Ninguém sabia



(Conto...por H. Cortezolli)

Tinha cabelo desgrenhado, com um franjão que cobria os olhos, comia sucrilhos no café.
Usava uns tênis all star surrado, que ficava jogado pelo quarto junto com as pilhas de roupas sujas, revistas de mulher pelada... Tinha uma parede pichada, de lembranças dos amigos mortos...
Não usava celular, pra não ser encontrado, tinha um ateliê na rua principal, na casa velha que era de seu avô.
Chamava o pai de senhor e a mãe de vizinha... Seu irmão gêmeo morreu atropelado. Nunca mais andou de bicicleta.
Só tinha olhos para menina mais feia da escola.
Ela usava óculos, uma trança até a bunda, não falava com ninguém. Ele sonhava com ela todas as noites, pensando em tirar os óculos e aquelas roupas sem graça e descobrir uma mulher linda. Com pele suave e perfume de rosas. Acordava com a cama molhada.
Ele a ignorava, fingia que ignorava durante o dia, porque ela não o via mesmo.
A seguia todos os dias depois da aula, já sabia onde morava.  Sentava na esquina e esperava ela entrar no prédio. Do outro lado da rua ele via as luzes do apartamento ser ligadas, ela abria as cortinas e sumia.
Todos os dias, durante três anos. Era essa a rotina de Felipe.
Era o momento mais sagrado.
Giovana era o nome dela. Ele sabia desde o segundo dia que a viu. Invadiu a sala dos professores, fez uma cópia da chamada, conferiu os lugares marcados, entrou na sala errada; De propósito, tudo para vê-la de novo e lá estava ela. Sentada na última cadeira perto da janela.
Tudo nela era estranho, tinha uma aura negra. Não deixava ninguém se aproximar, lia todos os livros que encontrava, escrevia o tempo todo, num caderninho que parecia um diário, mas tinha uma capa preta de couro.
Esse mistério em volta dela, que fez ele se apaixonar.
Seus poucos amigos não sabiam.
Ele pintava camisetas, com desenhos abstratos. Ganhava uma grana boa, desde os 14 anos.
Chegou a época do quartel, ele disse que iria para faculdade, foi liberado. Não serviu!
Saiu da cidade para fazer artes plásticas. Ficou obcecado pela menina estranha... Foram mais cinco anos.
Na faculdade comeu um monte de vadias, das mais corpulentas às de corpo de tábua. Nunca tirou a garota estranha da cabeça... Nunca se envolveu de verdade. Pensava nela enquanto possuía as outras.
Voltou para cidade não tão granado, mas dava pra ter o básico, um canto para dormir sossegado, um carro para fugir da chuva, todo peliculado. E parou bem em frente ao prédio, aquele onde ela morava. Pensou:
Será que ainda mora ali?
Desceu do carro, foi até a farmácia em frente, cantou a balconista. Ajeitou o cabelo, a camisa azul e o jeans surrado, continuava com os all star velho, para dar sorte.
Pelo espelho da farmácia viu uma mulher incrivelmente linda. Num vestido que arrastava no chão, carregando uma caixa de papelão, parecia pesado...
Se despediu apressado da bobinha da farmácia, e atravessou a rua, enquanto ela ainda está lá, tentando entrar.
Se ofereceu para ajudar e quando ela o encarou...
(É ela!).
Ficou sem voz, não conseguiu pensar no que dizer. Não disse mais nada.
Ela olhou por alguns segundos e entregou a caixa a ele, se virou e abriu o portão do prédio. Fez sinal de leve com a cabeça para ele entrar. Caminharam até o elevador, apertou o botão do quinto andar. Eles entram, e aquele silêncio interminável... Capaz de fazê-lo ouvir as batidas do próprio coração, acelerado...
Entraram no apartamento 503.
Com uma sala ampla, cortinas brancas de renda, na janela, como as que ele a via abrir antes de sumir pela casa...
Ela entrou foi até o outro cômodo, ele sentou no sofá e deixou a caixa do lado.
Deu uma boa olhada em volta.
Sofá cor de vinho. Tapete alto bege, pelos cantos estátuas de gesso, na parede um quadro enorme dela.    Com um vestido esvoaçante branco, quase transparente, cabelos soltos que cobriam seu corpo, os manteve compridos.
Afinal se passaram 5 anos, podia tê-los cortado, ainda bem que ficaram assim...
Ela volta e trás um copo d’água numa bandeja de prata. Ele aceita, bebe olhando para ela. Ela também não desvia o olhar...
Ele não sabe o que fazer, não lembrava mais como havia chegado até ali, não disseram nada. Só se olharam... Muito.
Ele se levanta e faz menção de ir embora e ela segura sua mão, leva até aquele rosto pálido e finalmente diz alguma coisa:
- Por que demorou tanto?
- Eu estava por aí.
- Vai ficar?
- Não sei dizer.
- Fica.
Naquela noite fizeram amor.
Depois de tantas mulheres que ele havia tido, aventuras e sacanagens. Era a primeira vez que ele fazia amor e sentia tanto prazer que parecia doer.
Era amor de moleque, sonhava com ela, a feia, esquisita, que lhe fazia companhia nos sonhos mais íntimos...
Estavam ali entregues, nos lençóis de cetim brancos, da cama dela. Naquele apartamento enorme, só os dois.
E não sabia quase nada, o que havia feito esses anos todos. Foi então que abraçados depois do auge... Ela disse:
- Quis morrer muitas vezes, hoje seria a última tentativa. E rezei para que o homem da minha vida batesse na minha porta hoje. No fundo eu sabia que seria impossível, mas tinha esperança. Então você voltou. Não tive dúvidas. Não posso deixá-lo partir nunca mais.
Ele olha pra ela e pergunta, e meio confuso, com medo da resposta, mas precisa saber:
- Você sabe quem eu sou?
- O único que me amou desde o colégio, que me seguia.
- Você sabia?
- Sempre soube, eu o sentia a cada esquina. Via seu reflexo nas vitrines das lojas. No início sentia medo.   Mas, quando você saiu da cidade, eu me perdi. Os livros não me faziam mais companhia e perdi minha motivação para escrever.
Ficaram juntos por cinco meses. Os mais felizes de sua vida. Ele ainda pintava, ganhou mais dinheiro naquele período do que nos anos que esteve fora. Ela voltou a escrever. A casa tinha cheiro de jasmim.
Foi um sonho. Até o outono... Giovana saiu de carro e sofreu um acidente. Felipe ficou sabendo enquanto fazia compras no supermercado. Saiu desconsolado sem saber o que fazer, correu para o hospital. Chegou lá, viu Giovana na cama, ela estava viva, inteira.
Sentiu um alívio e correu para os braços dela. Giovana quando o viu, não disse nada, olhou para o médico e perguntou com a voz embargada, querendo chorar:
- Quem é esse homem e porque está me abraçando?
Felipe aterrorizado percebeu que a mulher que tantos anos mantivera em sua mente não o reconhecia.
Foi o acidente doutor?
- Não, você não sabia, efeito colateral da medicação...
Giovana sofre de esquizofrenia.

quinta-feira, novembro 26

Um destino melhor

(Um conto dedicado à Fausto Suzuki pela influência).

 

  Laís tinha 17 anos, corpo formado, cabeça vazia, uma cara de sonsa...

  Esforçada na escola, lia todos os livros que podia, passava horas na biblioteca. Os pais a deixavam na porta da escola, depois iam buscá-la, certos de que não tinham com que se preocupar.

  Marcos era um cara boa pinta, sério, dava aulas de filosofia, desejado por todas as mulheres com as quais trabalhava, recusava todos os convites para sair. Falava várias línguas, usava roupas caras. Nas horas vagas, estudava artes...admirava.

  Eles se encontravam na esquina da escola, depois que todos a viam entrar no prédio. Mal podiam desconfiar que ela pulava o muro. Entrava no carro dele, iam para outro lugar, mais afastado dali.

  Sofia tinha um corpo perfeito, um cabelo cor de fogo. Se escondia em roupas sem graça, não usava maquiagem, e andava sempre cabisbaixa. Um dia no elevador do museu esbarrou num homem bonito, que lhe pediu desculpas e sem querer pegou em sua mão... Ele comentou que acabara de ler o mesmo livro que lhe pertencia, enquanto o juntava do chão.

  Por algum motivo que Sofia não pode explicar aquilo mexeu muito com ela, que imediatamente desviou o olhar daqueles olhos lindos.

  Depois daquela tarde, Sofia não o conseguia tirar da cabeça. Passava minutos a fio alisando a capa do livro, que ele havia tocado.

  Enquanto isso, Laís continuava com sua rotina. Não ligava para os rapazes da escola, se acabava de estudar, não abria a boca para nada. Mas, usava roupa da moda, que parecia terem sido costuradas a vaco no próprio corpo. Quando estava com Marcos, usava batom vermelho, que ficava na bolsa de maquiagem guardada no porta luvas do carro dele. Ele afrouxava o nó da gravata...

  Depois de um mês, Sofia acreditava saber tudo sobre o homem misterioso que não a deixava dormir uma noite, sem que sonhasse com ele. Resolveu escrever uma carta, sem assinar. Deixou perto do lugar onde ele sentava para admirar as esculturas do museu, era sempre o mesmo lugar... Ele olhava para elas e se perdia nos pensamentos. Mas naquela tarde foi diferente, havia um envelope com seu nome. Ele viu, o abriu e leu.

  Sofia escondida, observava de longe. A carta tinha os mais intensos sentimentos, ele emocionado procurava por todos os lados daquela sala fria, quem poderia ter escrito tais palavras, todas dirigidas a ele, um lado que ele nem sabia que tinha, mas que gostou muito de ter transmitido... Imaginou como seria aquela mulher delicada que havia preenchido aquelas linhas.

  Passados mais oito meses. Marcos não lembrava mais da carta, continuava sua rotina de recusa aos convites das outras mulheres. Sempre parecendo distante. Nenhuma era boa o suficiente para ele.

  Laís seguia também com suas fugas sem sombra de dúvidas, ela não tinha amigas, ninguém que quisesse conversar com a cdf da sala, então tudo bem.

  Quando não agüentava mais aquele sentimento rasgando seu peito, Sofia resolveu seguir seu amado, e se declarar, lembrá-lo da carta...

  Vestiu um vestido tubinho preto, arrumou seus cabelos ruivos compridos, colocou salto (que precisou ter aulas para se equilibrar), comprou uma rosa branca e levou consigo o livro que havia os “unido” naquela tarde de chuva, dentro do elevador do museu.

  Laís, repetiu sua rotina com Marcos... Pulou o muro da escola, entrou no carro dele, passou o batom vermelho e ele afrouxou a gravata...

  Sofia estava na rua onde ele morava, já era possível avistar o prédio de longe... Só mais alguns passos...

  Foi quando viu o carro dele chegando, havia uma mulher com ele. Sofia sentou no meio fio e chorou. Se sentiu ridícula com aquela roupa e todos os esforços em vão, como pôde acreditar que ele já não amava outra mulher?

  O carro entrou no prédio e Marcos não demorou para sair novamente, desta vez a pé. Atravessou a rua, caminhou até a banca de jornais, ascendeu um cigarro, lá tinha um homem, bem mais velho a quem lhe entregou as chaves...

  Sofia sentada no meio fio despertou o interesse de Marcos, que se aproximou e perguntou se já se conheciam. E por que ela estava chorando. Ela respondeu que talvez já tivessem se visto em algum lugar, mas que ela não lembrava.

  Ele a convidou para um café. Depois de alguns minutos de conversa ela pergunta se ele não deveria ir para casa, afinal um homem como ele deveria ter alguém o esperando lá. Ele ruborizou e respondeu que não poderia ir ainda. Pois seu apartamento serve de encontro para um casal. Ela não pergunta mais nada, mas ele certo de que não a veria outra vez resolve falar.

“Eu conheço uma moça, que se encontra com homens mais velhos no horário de aula, por um certo valor, depois que ela termina, dividimos o dinheiro.”

  Sofia sente seu mundo cair, e o chão se abrir por entre seus pés. O homem com quem ela imaginou que poderia ter alguma coisa, era um gigolô. A moça com quem ele estava no carro era uma prostituta.

  Sofia agradece o café e vai embora. Esquece sobre a mesa, a rosa branca e o livro...

  Quando volta para casa, Marcos encontro Laís morta com um tiro na cabeça, seus miolos espalhados pela sala e o velho morto ainda de meias com um tiro na boca... Crime passional grita o vizinho, que já haviam chamado a polícia.

Marcos sai correndo dali, sem saber o que fazer...

O que diriam os colegas de trabalhos, as mulheres com quem ele se recusou a sair? Foi quando ele lembrou de Sofia, poderia usá-la como álibi ou sei lá, uma companhia. Correu sem olhar a rua, e um ônibus o atingiu em cheio. Estavam todos mortos, o gigolô, a prostituta e o velho nojento.

  Sofia ainda caminhava sem sentir o chão... Rumo a sua casa, sem saber o que havia acontecido...

  Depois de uma noite sem dormir, juntou o jornal do chão da sala de seu apartamento, vestiu o robe e foi tomar café.  Entre um gole de café folhava o jornal, nas páginas policias estava estampado o título do crime passional, na seguinte de um atropelamento...de um homem de 30 anos, por negligência...

Sofia põe a mão na boca e sufoca um grito, enche os olhos de lágrimas e de repente, gargalhadas profundas lhe escapam, um riso aliviado. Ela olha para o jornal e diz:

“Não poderiam ter tido um destino melhor”!