"O texto simplifica meu eu complexo, ora é aliado, ora me faz refém".- Hellen Cortezolli

sexta-feira, junho 3

Um narciso decidido e eu perdendo meu tempo

P1120518  Ele me chamava de gata. Tinha um jeito diferente de pronunciar isso. Até que era um charme... Eu pensava que era para não trocar os nomes, penso sempre isso desses apelidos piegas.

  O conheci pouco, num espaço curto e nossa história foi tão breve quanto o desfile de uma estrela cadente riscando o céu, quase não deu tempo de pensar em um pedido...

  Viajei para ficarmos juntos e vimos desenhos em nuvens como diz a letra de uma música... (ele chamava de mente sugestionável, deu tudo errado, mas foi como tinha que ser).

  Aos olhos dele eu era uma gata elegante, mas sem arrogância. Com uma doçura que hoje não existe mais. E, ele ainda diz que o ácido é o avesso do doce e vice versa.

  Mas, não deu certo... responsabilidade que atribui a ele mesmo. Naquela época eu não era tão temperamental. Na verdade não houve tempo para que eu fosse. Não discutia nunca, dava as costas e partia. Jamais voltava.
  Faz tempo que tinha essa vontade de questionar de um ex-namorado, o que há de errado comigo.
  Ele recitava Neruda e me escrevia cartas de amor. Isso não era problema.

  Me fez lembrar que nem todos os homens são vazios, pobres de espírito, do tipo Dom Ruan Amador, que presta favores sexuais, carentes de elogios, mal resolvidos em todos os setores de suas vidas medíocres, acostumados a nivelar por baixo. E que me fazem perder meu tempo.

  As metades precisam de polimento, para se completar e formar o todo. Percebi que as minhas escolhas são peças erradas, que jamais irão se encaixar. Que ridículo!

  Mereço mais. Um romance, alguém decidido que jamais conte vantagens e muito menos exiba esboços de carne, de lixo, de restos... Como urubus no lixão, quem pegou quem, quando e como não é assunto para ser citado nunca.

  E ele era meio punk, louco, desencanado e me achava linda.
  Dizia que estrelas que brilham próximas tendem a pagar umas as outras, e isso dava medo, o mesmo medo que tenho de me envolver hoje. Mas, nunca fui de falar.

  Me sinto só mesmo acompanhada, porque me preservo demais.
  Não adianta ter um tesão gigante e um abismo entre o casal...por isso continuo sozinha... talvez isso nunca passe, né? Não há gênio compatível com o meu, mas não faz mal, melhor do que me contentar com restos ou migalhas.

  Ele diz lembrar da minha companhia, inteligência, articulação, de ser atraente, sexy e de se sentir estranho perto de mim. Porque “gente assim toma o controle com facilidade”. Lembra ainda da minha pele e da minha cor favorita.

  Meu destino é morrer só e seca, por ter muito amor e não ter a escolha certa para dar, por mais que eu me vista com minha melhor armadura, me desfaço com as piores palavras proferidas e todos os momentos serão os errados...

  Me magoo fácil e não costumo perdoar e o maior esconderijo, a escuridão já não serve de abrigo, não oferece mais proteção. É bem verdade que todos somos frágeis e por ninguém querer se machucar... nos ferimos ainda mais.

  Autopreservação é antídoto. E todo homem tem medo que a mulher seja mais brilhante que ele. Então, se melindra, há quem discorde. E isso tanto faz.
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Muy me encanta tus ojos negros con la color de la noche me gusta tus pelos hermosos y piel del seda – D. F. Gomes (havia esquecido como era namorar assim, sem reticências, sem ponto e vírgula, sem babaquices).
* Saudades dos gaúchos, tão mais decididos, os amapaenses são naturalmente inseguros e não tenho mais paciência. Bibelôs é coisa de mulher e elogios não se cobra, nem se espera. Muito menos declarações ou manifestações públicas de afeto, tão pouco comentários sobre as refeições anteriores. O asco que senti logo cedo, nem lembro mais.