"O texto simplifica meu eu complexo, ora é aliado, ora me faz refém".- Hellen Cortezolli

quinta-feira, abril 1

Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência

Ilustração do livro Brasiliana Itaú - De Portinari inspirado pela obra O Alienista de Machado de Assis. Com a partida do Mestre das Ilusões rumo à exploração de terras longínquas, os tripulantes da barca furada, sabiam que sua ausência seria sentida, no entanto, não imaginavam o quão difícil seriam as viagens vividas sem sua presença. Onde não poderiam mais contar com ele e seu inseparável amigo da capa preta.

Contudo, subestimaram os poderes do Mestre das Ilusões, que com sua poesia e maneira de encarar as aventuras em alto mar, nunca deixou transparecer que seu nome não era uma mera fusão de significados minuciosamente concebidos, não poderiam mensurar que ele ocultava as faces verdadeiras do pirata Bilíngue e do capitão Alma Negra, para manter a união e convivência pacífica entres os membros da embarcação.

Mal sabiam os tripulantes que, na verdade sem o Mestre das Ilusões  à bordo, o pirata Bilíngue e o capitão Alma Negra, não passavam de ratos comuns, daqueles encontrados em qualquer porto imundo…  

Pois, fora em uma dessas aventuras que a Piratinha e a Aspira, puderam constatar como os ratos - anteriormente conhecidos como pirata Bilíngue e capitão Alma Negra – reagem aos mais ínfimos estímulos. Cujos argumentos usados em suas respectivas defesas, rechaçam o hino pirata, o maior símbolo honorífico de los piratas de los bares. Engana-se quem pensa que pirata não tem honra, nem lei.

A história se deu, quando a barca furada resolveu seguir rumo a ilha de Páscoa, a tripulação fora composta pelo papagaio de pirata, capitão Alma Negra, pirata Bilíngue, Aspira e a Piratinha. Num carregamento de barris de rum, num cais qualquer, deram guarita para uma “alma nova”, que pôde dar o ar de sua graça. Naquelas circunstâncias toda a companhia seria bem vinda, pois com a vacância insubstituível do Mestre das Ilusões, o capitão perdeu completamente a noção de critério para novos membros, em primeira instância convidou para subir à bordo, uma piriguete velha, logo em seguida deixou-se seduzir por um pirata das antigas, cujo barco cheirava a novo…

A bandeira não tremulou antes da hora do diabo, e os piratas não foram capazes de perceber que isso era um mal sinal.

Os ratos imediatamente embarcaram no barco novo e, ignoraram totalmente a honradez que ainda lhes restava. Aspira, Piratinha e a convidada de alma nova, seguiram sozinhas rumo ao encontro do amigo “francês”.

Diante de tão indigna ação dos ratos famigerados piratas, a Piratinha arquitetou um plano diabólico para vingar-se dos golpes desferidos pelo pirata Alma Negra com a intensão de ferí-la mortalmente, todavia sem sucesso. Atitude esta, eleita pelo mesmo como diversão, apenas seu ombro esquerdo fora atingido.

Não seria nada inteligente desembainhar sua espada e apontar diretamente ao capitão Alma Negra, em sua forma de rato, afinal quem deixou de ser pirata foi ele, não ela. Não há honra em esmagar animais que não conseguem discernir o certo do errado. Preferiu privar-se de qualquer reação para melhor arquitetar seus planos de vingança.

Imediatamente ao golpe que fez escorrer seu sangue quente e vermelho, a Piratinha recordou das palavras de um outro capitão, pelo qual ainda sustenta profunda admiração:

Seu nome é Nascimento e, assim como a Piratinha, também acreditou ter escolhido mal suas companhias. Foi durante uma investida ao território inimigo,  que capitão Nascimento advertiu o seu suposto sucessor, que pôs em risco a vida de seus comandados, numa ação suicida:

Tira essa roupa preta, tira essa roupa preta que tu não é digno de usar essa farda, tu não é caveira, tu é moleque”, esbravejou indignado o capitão.

Será que a Piratinha realmente morreu?Essas palavras ecoavam na mente da Piratinha, enquanto recordava o significado dos símbolos piratas… E, se preparava para o confronto final com o capitão Alma Negra…

Distante ainda três dias do destino final, a ilha de Páscoa e, com o mar revolto, os piratas encaram uma tempestade... Antes do fim da viagem a Piratinha fora dada como morta, porém seu corpo não fora encontrado. Os tripulantes da barca furada ignoraram completamente o fato de que já haviam sido amaldiçoados à caminho da ilha…

O cavalheiro da Capadócia, nobre homem de bons sentimentos e que sente repugnância pelos interesses sórdidos,(com ressalva apenas aos “losângulos”) em sua armadura de metal azul, conduziu a “alma nova” até um lugar seguro e, as lembranças da Piratinha em terra, como homenagem póstuma…

(Será mesmo que a Piratinha terá tido um destino tão infeliz, sem antes fazer o capitão Alma Negra provar do seu próprio veneno? Que gosto terá o sangue de um rato?)

Saiba nos próximos capítulos…