"O texto simplifica meu eu complexo, ora é aliado, ora me faz refém".- Hellen Cortezolli

quinta-feira, janeiro 14

As subliminaridades das propostas de trabalho

  Atípico...

  Pode-se dizer que hoje o dia foi assim. Vislumbrando com olhar otimista, oportunidades nunca me faltaram, tenho ótimos contatos e um monte de gente que acredita que basta me dar uma missão que eu desempenho com afinco (meu pai fica orgulhoso com isso, ele também pensa assim), mas a pergunta que não quer calar é, por quê?

  Se partirmos da premissa de que uma oportunidade reúne interesses que vão além do aprendizado - que é sempre bem vindo obviamente – contudo, no auge do meu sétimo semestre e o acúmulo de alguma experiência que pude adquirir nesses quase sete anos de trabalho, o por quê é um questionamento que não me sai da cabeça. Não é uma reclamação, procuro tentar entender o que se passa comigo, para deste modo, contornar e evitar que ocorra novamente...

  Desde que cheguei ao Estado, tenho tido várias oportunidades de trabalho, mas nunca é aquilo que é inicialmente é proposto. Sem mais delongas, me questiono se não é algo estampado em minha testa, do tipo:

Mão-de-obra barata!

Ou quem sabe:

Posso trabalhar tipo bicho, me pague se puder!

  Sei lá, só pode ser algo assim. Sem levar em consideração a economia do contra-cheque que movimenta substancialmente o Estado do Amapá e o município de Macapá, sei lá, atrasar salários é algo corriqueiro, vira notícia não por ser um ato que beira a abominação, mas porque simplesmente acontece e já caiu na banalização, o povo faz greve e ainda assim, atrasam. E não é só no Estado, ou município. As empresas privadas são campeãs, e ainda obrigam os funcionários a assinarem os contra-cheques com data retroativa para não pagarem multas. As pessoas se submetem porque têm filhos, precisam do emprego, contraíram dívidas e outros bilhões de motivos que só cabem a elas avaliar.

  Hoje foi a minha vez de bancar a otária. E, não foi a primeira vez...

  Bom, o que me motivou a levantar cedo, sair de casa toda arrumada (terno e salto já eram itens pelos quais desenvolvi certa aversão depois do último emprego, “emprego”, porque faz mais de um ano que trabalho só como estagiária, sem carteira assinada, só contratos que duram até dez meses, período definido propositalmente para não dar férias, décimo e tudo mais, aliás é algo que não tenho faz tempo, enfim...) como já havia mencionado anteriormente, desde que cheguei aqui... Sim, porque saí do meu Estado de origem em função da mudança de meus pais para o Amapá, já com emprego arranjado no qual permaneci por dois anos e meio. Depois disso trabalhei dez meses como estagiária, e atualmente às vésperas de completar mais seis meses em outra instituição, onde também atuo como estagiária, sempre aparece oportunidades e promessas de salários sedutores. Jogam lá em cima e quando simpatizo com a proposta, vem a rasteira. Nunca é o valor que inicialmente é mencionado por telefone, daí minha indignação e desconfiança que de fato seja realmente algo com a minha cara de pateta.

  Fui a uma entrevista, na chegada um senhor simpático e falante me recepcionou, e despejou os afazeres da minha função, enquanto esse senhor simpático, cheio de motivação, se queixava da minha suposta antecessora, porque, acredite ele achou que eu estava certa para a vaga. E eu ainda nem sabia exatamente o que ia fazer, me falaram de trabalho e salário, mas queria mais, precisava saber sobre horários, regras e enfim, de tudo.

  Olhei para aquela sala minúscula cheia de papéis espalhados pelo chão, pastas, caixas arquivos, jornais velhos e novos, tudo ali…

  - Estou organizando o arquivo de cinco anos – disse enquanto guardava os cds de cima da mesinha, que tinha um computador, com impressora, mais papéis e uma porção de pastinhas…

  Era para eu estar lá às 9h, cheguei 8:30h, medo de me atrasar... O rapaz que faria a entrevista não apareceu, fui “convidada” então por meu “futuro patrão” para acompanhá-lo em uma reunião. Cara! Ele nem tinha conversado comigo a respeito de quase nada e, lá estava eu na sala de reunião, tentando entender o contexto da conversa. Sorte que assisto televisão, leio jornais, acesso a internet e por aí vai...

  No retorno ao “escritório” falei um pouco de mim e das expectativas para o cargo...

  Eis que vem aquele papo: - Então...

  Independente da área de atuação, toda vez que te disserem “então”, prepare-se para a decepção. Pois é, não era o que eu havia ouvido falar inicialmente, havia sim milhões de senões, poréns e o que mais você pensou aí. O pior é que na hora eu fico empilhada para trabalhar, penso:

  - Ah! Eu vou vampirizar a função e será mais experiência adquirida.

  Entretanto, eu já estou velha...E ainda não me levam a sério.

  Pra encurtar a história, perdi o horário do meu compromisso, o qual expus ao meu “futuro patrão”, que não poderia faltar em hipótese alguma. Foi o mesmo que dizer: “Ei, me explore à vontade, me deixe sem almoçar, me atrase para o compromisso, e me dê trabalho para casa, ah! E claro, não precisa me pagar”.Não que eu quisesse ser paga por enviar alguns e-mails, que daquele computador que não conseguia acompanhar o meu ritmo de digitação – nunca tinha visto terminar a frase, parar de digitar e o computador terminava de digitar segundos depois de mim. Muito louco isso!

  Não fiquei com raiva dele, ou das pessoas que me receberam, fiquei com ódio de mim. Acho que foi por isso que passei mal na rua. É óbvio que o fato de ficar sem almoço até às 3 da tarde também colaborou. Já que meu organismo não aceita bem café da manhã, e não aceita almoço atrasado também.

  Mas, enquanto eu estava na Kombi branca, sem cinto de segurança, que só Deus sabe como ainda circula na capital que se orgulha de ter um contingente considerável de guardas de trânsito para multarem todo mundo…, com os “meus futuros colegas de trabalho” que fizeram o favor de me dar carona... Lembrei que antes dos vinte anos, eu havia chegado há uma semana de Pelotas no Rio Grande do Sul, onde havia estado por três meses, fazendo curso e trabalhando para o Banco local... Eu queria trabalho, e resolvi atuar numa coisa que jamais imaginei que aceitaria, só pelo desafio.

Campanha Política.

  Nunca esqueci os pensamentos nutridos pela experiência de bater de porta em porta para conquistar votos para um candidato que defendia um ponto de vista, mas que no final das eleições, quando percebeu que não conquistaria nem os votos dos amigos, porque definitivamente ele não tinha carisma...e ninguém acreditava no que ele dizia, resolveu mudar drasticamente de postura, não fiquei nem um dia a mais naquele...como é mesmo o nome que se dá para o lugar onde os políticos reúnem pessoas para trabalhar para eles? Aff! Esqueci. Ah, sim comitê eleitoral.

  Arrumei meu primeiro emprego de carteira assinada naquela mesma semana. Já havia passado por teste psicológico e entrevistas, ficado entre quinze mulheres, fui escolhida, recebi o telefonema, no qual não esbocei nenhuma reação, porque imaginei que seria mais um teste, comecei a trabalhar numa segunda-feira... Foi legal.

  Não recebi o dinheiro do trabalho que fiz para o político, com o argumento - por parte dele – de que eu estava empregada e não precisava mais da grana. Pode? Mas, fiz como meu pai sempre fala. “Tenho mais Deus pra dar do que o Diabo pra tirar” - ou alguma coisa parecida.

  Bom, a lembrança me veio ainda naquela Kombi branca... Foi que se eu aceitasse o “serviço” eu estaria regredindo. Não quero desmerecer a oportunidade, nem fazer pouco caso das pessoas que me receberam muitíssimo bem e se acabam de tanto trabalhar. Mas, não era o que eu queria. Nem o que haviam me dito que seria...

   Valorize-se.Entretanto, me fez lembrar do início da minha vida profissional, e que já fiz tanta coisa, andei no sol, bati de porta em porta, trabalhei para bancos, Eca! Não quero mais... Usei ternos, os quais na época eu podia pagar um por mês... Trabalhei com empolgação para gente que mentia que iriam me contratar por salários “milionários” se eu trabalhasse em dois períodos e recebesse por um... para uma estudante, sem filhos, que ainda mora com os pais... O mais engraçado é que sempre me chamam para trabalho...tem que ser algo na minha cara...e sério freela não é coisa para mim...Enfim. Pelo menos eu tive assunto e valeu esse post.